É possível a vida sem os supermercados

Há tempos que surgem iniciativas que propõem uma alternativa de consumo frente às grandes redes de supermercado. No Chile, por exemplo, o governo está incentivando o comércio local de pequeno porte. Como aponta o Jornal Nexo, essa iniciativa do governo chileno ajuda a aquecer a economia e reforça laços sociais dentro dos bairros. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) lançou uma campanha semelhante em 2005, cujo tema era “Movimento Compre do Pequeno Negócio”. Essa campanha tem como mote promover o desenvolvimento local. De fato, já que 54% dos empregos formais se encontram nos comércios locais, apoiar esse tipo de empreendimento ajuda a desenvolver a comunidade local.

A alimentação é um setor particularmente exemplar desta lógica e das dinâmicas atuais. Desde a segunda metade do século XX, o setor da agroindústria, junto com as grandes redes de supermercados, contribui com a descaracterização da agricultura que passou a ser submetida aos mesmos imperativos produtivistas do modelo de desenvolvimento industrial. Além disto, houve a perda do contato entre o campo e a cidade. Os consumidores, em geral, não sabem de onde vem seus alimentos e muito menos quem os produz. Frente a isso, muitos pesquisadores e ativistas dos ditos Circuitos Curtos Alimentares perguntam: “Se você conhece bem seu médico, como não conhece o seu agricultor?”

> Circuitos Curtos Alimentares

A lógica dos Circuitos Curtos Alimentares (CCA) é simples, segundo especialistas da temática como a Profa. Claire Lamine ou o pesquisador Moacir Darolt, essa é uma forma de comercialização que envolve no máximo um intermediário entre produtor e consumidor. Nessa linha se encaixam as feiras do produtor, os grupos de consumo responsável e os mercados institucionais (por exemplo, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)). Esse tipo de canal de comercialização tem a premissa de eliminar os intermediários afim de melhor remunerar o produtor e reduzir os preços de venda para o consumidor. Estes CCA são um contraponto aos Circuitos Longos, nos quais se enquadram a grande maioria das iniciativas que comercializam alimentos. É extremamente variável a quantidade de intermediários que existem entre o produtor e o consumidor nos circuitos longos convencionais e esta informação pode até ser um segredo de negócios das grandes redes varejistas. Podemos, por exemplo, olhar para o caso de um produtor de pêssegos na região de Jundiaí e estimar quantos elos tem a cadeia. Esse fruticultor vende sua produção para um atravessador, que comercializa com uma banca do Ceasa. A banca abastece pequenos e grandes mercados ou ainda feirantes, até por fim chegar nas mãos do consumidor final.

> Grupos de Consumo Responsável

Os Grupos de Consumo Responsável (GCR) são uma realidade no Brasil há pelo menos 40 anos. Iniciadas no sul do país, as pioneiras foram as Cooperativas de Consumo. Ao passar dos anos, as iniciativas se reinventaram e evoluiram e são hoje identificadas como GCRs. Esses grupos não são uma exclusividade brasileira, são parte de um movimento mundial, de longa data, que visa valorizar o trabalhador rural através do comércio justo e solidário.

Na cartilha “Organização de Grupos de Consumo” de 2011, Thais Mascarenhas e Renata Pistelli descrevem os GCRs como “grupos de pessoas que decidem organizar-se para comprar determinados produtos, de uma forma diferente da que ocorre no mercado convencional. Essas pessoas querem ter acesso a produtos que tenham qualidade nutricional e que sejam fruto de um sistema produtivo e comercial que respeite as pessoas e o meio ambiente”.

Atualmente existe uma dinâmica muito forte de consumidores em busca de alimentos mais saudáveis, como aponta uma pesquisa da Associação Paulista de Supermercados (inserir link para pesquisa). Associado a isso, muitos consumidores buscam a rastreabilidade de seus produtos, como relata Juliana Andrade do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), principal autora do estudo “Percepção do consumidor frente aos riscos associados aos alimentos, sua segurança e rastreabilidade” de 2013. A rastreabilidade confere ao consumidor um aumento da transparência na cadeia alimentar e contribui para aumentar sua confiança. Essas duas pesquisas, embora desenvolvidas olhando para circuitos longos, mostram que hoje em dia, a maioria dos consumidores buscam alimentos saudáveis e uma cadeia alimentar transparente, exatamente o que um GCR oferece.

> A Rede Brasileira de GCRs

Atualmente no Brasil existe a Rede Brasileira de GCRs, que surgiu em 2011 a partir do I˚ Encontro Nacional dos GCRs. Essa articulação surge da vontade comum de trocar experiências e de promover construções coletivas entre os GCRs. Já houveram três encontros em 2011, 2013 e 2015, onde puderam participar grande maioria dos GCRs mapeados. Para saber mais sobre estes encontros acesse Link da Notícia no Site do Kairós.
A Rede Brasileira conta hoje com 25 GCRs por todo o Brasil. A rede disponibiliza um mapa localizando as iniciativas que fazem parte dessa articulação. Porém, muitos outros GCRs vão surgindo e podem não estar presentes no mapeamento. O objetivo da Rede Brasileira é que, graças ao trabalho voluntário de todos os envolvidos, essas novas iniciativas sejam convidadas para fazer parte de uma articulação para dinamizar cada vez mais a Rede.

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> Diversidade de GCRs

Embora compartilhem valores comuns, não existe um modelo dominante que funcione perfeitamente para todos os GCRs mas vale aqui mostrar alguns princípios básicos de funcionamento de alguns GCRs que fazem parte da Rede Brasileira de GCRs. É importante destacar que os GCRs não são apenas lojas de orgânicos. Esses grupos trabalham com a intenção de ir além das trocas comerciais e promover, por exemplo, a reeducação alimentar através de atividades educativas. Entende-se que o homem perdeu boa parte de costumes de alimentares voltados a uma alimentação menos industrializada e a mudanças nos hábitos de consumo passam por mudanças mais globais nos hábitos alimentares, sociais e culturais.

Dentro dos GCRs existem dois tipos principais, segundo Pistelli e Mascarenhas, a rede singular e a rede capilar. O primeiro tipo recebe e distribui produtos no mesmo ponto, já o segundo recebe produtos em um ponto e, como diz o nome, capilariza para outros pontos onde os consumidores retiram os produtos. A rede singular é o tipo que caracteriza, por exemplo, o CSA São Carlos, o CCRU – SOLO, a Rede Guandu, o GCR Tapiri e o ComerAtivaMente. Já a Rede Ecológica é um exemplo de rede capilar.

Tabela 1 – Exemplos de GCRs e comparativos em bases de funcionamento. Fonte: Elaboração própria a partir de levantamento realizado pelo Instituto Kairós.

Nome do Grupo de Consumo Responsável Localização Média de consumidores por entrega Principais produtos comercializados Como acontecem os pedidos? Frequência das entregas Critérios para a escolha dos fornecedores
CSA São Carlos São Carlos (SP) 62 Hortaliças, pães e laticínios. Cesta fechada com produtos sazonais Semanal Agricultores familiares

e agroecológicos.

O Coletivo de Consumo Rural Urbano – Solidariedade Orgânica (CCRU – SOLO) Santo André (SP) 35 Verduras, legumes e frutas. Cesta fechada com produtos sazonais Quinzenal Agricultores Familiares e agroecológicos.
Rede Guandu Piracicaba (SP) 100 Hortaliças, frutas, doces, conservas cogumelos, laticínios, pães e ovos caipiras. Lista aberta e cesta fechada de produtos sazonais Semanal Produtores locais, com preferência para orgânicos.
Grupo de Consumo Responsável Tapiri Manaus (AM) 30 Mel, hortaliças, fitoterápicos, laticínios e castanhas. Lista aberta Semanal Produtores organizados dentro dos princípios da Economia Solidária e agricultores familiares agroecológicos.
Rede Ecológica Rio de Janeiro (RJ) 200 Hortaliças, frutas, pães, mudas, polpas, queijos, ovos,  cereais, farinhas,  sucos e compotas. Lista aberta Semanal Produtores locais orgânicos e agroecológicos ou agricultores familiares ou assentados.
ComerAtivaMente São Paulo (SP) 30 Hortaliças, frutas, laticínios e cereais. Lista aberta e cestas fechadas Semanal, quinzenal, bimestral e trimestral Produtores orgânicos ou agroecológicos próximos a São Paulo

 

Além dos GCRs, existem outras experiências que buscam reinventar as formas de consumir. Em São Paulo, por exemplo, existe uma iniciativa voltada para o comércio justo e consumo responsável chamada Instituto Chão. Essa iniciativa trabalha principalmente na valorização dos produtores e na transparência. Neste empreendimento, não há lucro sobre os produtos vendidos e os preços divulgados são aqueles pagos aos produtores, que entregam os produtos na sede da iniciativa. Os gestores sugerem ao consumidor que seja adicionado 30 a 35% ao valor final da sua compra, valor que julgam suficiente para pagar as contas, manter o espaço e remunerar a equipe, formada por membros associados do empreendimento.

> Por Que Praticar o Consumo Responsável?

Todos gostamos de ter nosso trabalho valorizado de todas as formas possíveis, desde a questão monetária até o reconhecimento social. Este é um dos pilares do consumo responsável. Há tempos, observa-se uma desvalorização do trabalho no campo, por se tratar de um trabalho braçal, visto como atrasado e relegado a populações de baixa renda. Esse tipo de pensamento é um dos motores do êxodo rural. Muito já foi dito sobre essa dinâmica que esvaziou os sítios e fazendas e encheram as periferias de médias e grandes cidades nos últimos 60 anos.

Além da valorização do trabalho rural, o consumo responsável visa colocar o consumidor em contato com os agricultores, para promover um conhecimento e reconhecimento mútuo, a partir da troca de experiências de vida. Outra preocupação daqueles envolvidos com o consumo responsável, é a qualidade ao longo da cadeia produtiva dos alimentos. Sabe-se que o meio rural brasileiro é o campeão mundial no uso de agrotóxicos, na depredação do meio ambiente e até na utilização de trabalho análogo à escravidão. Logo, o consumidor responsável, preza por descobrir de onde vem seus alimentos, quem os produziu e sobretudo como, para poder escolher que tipo de sistema de produção apoiar na hora da compra. Os GCRs, mas também outros circuitos curtos como feiras do produtor, são oportunidades importantes de conhecer de onde vem seu alimento, quem o produz e ajudar a promover a manutenção desses agricultores no campo em condições dignas.

A recente pesquisa intitulada “Alimentos sem veneno são sempre mais caros?”, organizada pelo Instituto Kairós e pelo Instituto Terra Mater e executada pela Rede Brasileira de Grupos de Consumo Responsável, demonstra isso. A partir de levantamentos realizados durante um ano, foi possível fazer comparação do valor de uma cesta de produtos sem veneno em GCR, em feiras orgânicas e em supermercados. Os resultados mostraram que, no supermercado, o preço chega a ser de duas a quatro vezes superior ao dos GCRs em função do produto.

Esta pesquisa for inspirada por outras, em particular uma organizada pela Associação de Agricultura Orgânica (AAO) e outra pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) em 2010. Estes estudos prévios mostraram, da mesma forma, que consumir orgânicos em Feiras do Produtor é mais barato do que consumir orgânicos em supermercados.

> O Consumo Responsável em Outros Países?

As iniciativas de consumo responsável não são uma exclusividade brasileira. O pesquisador Moacir Darolt mostra no livro “Conexão Agroecológica” que iniciativas como os GCRs começaram nos anos 1960 no Japão com os Teikei. Estes grupos foram iniciados por algumas mulheres que começaram a se preocupar com a alimentação de sua família e os riscos da, então, agricultura moderna. Nos anos 1990 e 2000 começou a se difundir pelo mundo esse tipo de prática, tendo como marco o início das AMAPs (Association pour le Maintien d’une Agriculture Paysanne, em português, Associação para a Manutenção de uma Agricultura Camponesa) na França, os CSAs (Community-supported agriculture, em português, Comunidade que Sustenta a Agricultura) no Canadá e EUA ou ainda GAS (Gruppi di Acquisto Solidale, em português Grupos de Compra Solidária) na Itália, entre outros. Essas iniciativas são de grande importância atualmente em seus países, tendo em vista a quantidade de núcleos que se formaram e de consumidores que abastecem. Estima-se que atualmente existem mais de 1600 AMAPs na França, mais de 13000 fazendas que participam do CSA nos EUA e no Canadá, mais de 900 GAS na Itália e mais de 1000 Teikeis no Japão.

Referências:

 

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/05/alta-procura-salva-mercado-de-alimentos-saudaveis-da-crise.html

 

http://www.scielo.br/pdf/bjft/v16n3/a03v16n3.pdf

 

http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT336358-17773,00.html

 

http://aspta.org.br/wp-content/uploads/2013/08/Agriculturas_JUN-2013.pdf#page=8

 

https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=wSOpAgAAQBAJ&oi=fnd&pg=PR3&dq=goodman+quality+turn&ots=lE1wYb9Wcv&sig=YUkx3gnHZIOzCIbIzaMhQH609cY#v=onepage&q=goodman%20quality%20turn&f=false

 

http://csabrasil.org/csa/csas-no-brasil1/

 

http://www.bibliotecadigital.abong.org.br/bitstream/handle/11465/682/1566.pdf?sequence=1&isAllowed=y

 



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