Parcerias podem alavancar produção de leite orgânico e derivados no Brasil

Em 2012, a Embrapa Cerrados indicou que o Brasil produziu 6.8 milhões de litros de leite orgânico, e esse resultado representava menos de 1% dos 32 bilhões de litros do produto convencional naquele ano.

Em 2015, a Embrapa Gado de Leite calculou que o mercado de leite orgânico obteve crescimento de 30% nos três anos anteriores. Na época, a instituição apontava que o negócio era interessante para o pecuarista, devido à maior margem de lucro.

Mesmo diante de um cenário tão promissor, e apesar do crescimento da demanda, a produção de laticínios orgânicos em geral ainda é incipiente e enfrenta diversos gargalos. É o que observa a coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Sylvia Wachsner.

“O aumento na demanda de produtos lácteos envolve desafios e oportunidades, e a saída é promover parcerias entre produtores, pesquisadores e indústria”.

Para a coordenadora do CI Orgânicos, um dos maiores desafios está na alimentação animal, que só é possível com grãos orgânicos. “Num país que produz enorme quantidade de soja e milho transgênicos, os grãos orgânicos são mais caros e tem produção muito limitada”, declara Sylvia.

Segundo ela, outros fatores contribuem para dificultar a produção de leite orgânico.

“Os adubos de compostos orgânicos também são mais caros que os fertilizantes químicos e sintéticos, proibidos na produção orgânica. No caso dos medicamentos, os fitoterápicos, os naturais e a homeopatia são os únicos permitidos pela legislação orgânica. Medicamentos sintéticos não podem ser utilizados”.

Devido aos entraves, poucas empresas se aventuram nesse segmento.

“O que desestimula uma entrada maior de produtores de leite orgânico é a pouca pesquisa e conhecimento em relação às técnicas a serem utilizadas para desenvolver uma atividade com boa produtividade, sem o uso de antibióticos e vacinas”, assinala Sylvia.

“Na produção de leite orgânico deve ainda se pensar no conceito de bacias leiteiras, que permitem transportar caminhões cheios de leite dos produtores até a indústria de transformação”.

Por outro lado, a especialista não deixa de considerar a forte crise pela qual a produção de leite convencional está atravessando, “devido aos elevados preços dos insumos como o milho, a soja e o algodão, que subiram mais que a correção do preço do leite, o que diminui a remuneração do produto e o desestimula”.

Sylvia lembra que hoje em dia há pequenos laticínios e empreendimentos do setor orgânico que produzem derivados do leite (no caso, queijos, manteiga e iogurtes comercializados de forma local ou em municípios próximos às regiões produtoras).

“Podemos contar nos dedos as empresas que produzem leite e derivados com capacidade de comercialização nas principais cidades. Além disso, os preços são bastante superiores em relação aos laticínios tradicionais”, aponta Sylvia.

Dentre as poucas representantes do setor, a Fazenda Nata da Serra, localizada no interior de São Paulo, produz queijos, iogurte e manteiga. A Fazenda Timbaúba, de Alagoas, fabrica leite UTH, iogurte, requeijão e manteiga. Na Paraíba, a Fazenda Tamanduá também produz queijos.

“São empresas que, apesar dos problemas de logística, comercializam seus produtos em canais de varejo menores, minimercados, feiras-livres, lojas, e entregam cestas em domicílio”, ressalta a coordenadora da SNA.

No entanto, o mercado continua a sofrer baixas. A Fazenda da Toca, de São Paulo, por exemplo, apesar de ter investido de maneira forte na produção de iogurtes orgânicos, e de ter acesso a uma das maiores redes de supermercados do País, está abandonando o setor.

Especialistas atestam que o leite orgânico conta com uma grande quantidade de nutrientes, possuindo níveis elevados de ácidos gordos e ômega 3.

Em sua produção, não são utilizados pesticidas, insumos sintéticos ou químicos para tratar dos pastos ou da saúde dos animais.

Antibióticos, hormônios, aditivos promotores de crescimento e estimulantes de apetite também ficam fora do processo produtivo, assim como a ração obtida de organismos geneticamente modificados e vacinas fabricadas com a tecnologia da transgenia.

Além disso, e de acordo com os princípios da sustentabilidade, a produção orgânica promove o bem-estar animal e protege os recursos naturais, deixando a água e os solos mais saudáveis.

Em 2015, o mercado mundial de lácteos orgânicos foi avaliado em US $ 7,7 bilhões, o que representa 11 % do total do mercado global de alimentos e bebidas orgânicos.

O maior comércio do gênero está na Europa, e continua a crescer. No Reino Unido, o leite é comercializado sob a bandeira da marca própria dos varejistas (private label).

Em 2014, os Estados Unidos gastaram cerca de US$ 35 bilhões em alimentos orgânicos, dos quais perto de US $ 5,1 bilhões foi destinado à compra de laticínios, conforme informação do Nutrition Business Journal. Redes varejistas como a WalMart procuram atrair mais produtores devido à grande demanda.

Fonte: SNA



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